Evento apresenta pesquisas sobre solo, água, clima, florestas e sistemas de produção vegetal e animal
A região sul do Mato Grosso Sul e parte do estado do Paraná se transformaram nos últimos quatro anos em um laboratório a céu aberto para investigações sobre os tipos de solos, seus usos para atividades agropecuárias e suas relações com água, clima e florestas. As pesquisas fazem parte do programa Ação Integrada de Água e Solo (Aisa), iniciativa que envolve diversos parceiros que farão, nos próximos dias 8 e 9 de abril, durante o II Workshop Aisa, em Foz do Iguaçu, uma apresentação preliminar dos resultados alcançados.
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Entre as instituições envolvidas estão a Itaipu Binacional, Embrapa, Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná, Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR-Paraná), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), e Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento (Faped).
Para o diretor de Coordenação da Itaipu, Carlos Carboni, o envolvimento da empresa nessa iniciativa reflete o cuidado com a região de contribuição hídrica para o reservatório da empresa, foco das ações do programa Itaipu Mais que Energia, presente no Paraná e em 35 municípios do Mato Grosso do Sul.
Ele destacou que os resultados a serem apresentados no workshop reforçam que as práticas agrícolas, especialmente nos cuidados com o solo, a água e a biodiversidade, não são apenas melhores para o meio ambiente, como também geram benefícios econômicos para os produtores.
“Já conseguimos comprovar, por exemplo, a viabilidade econômica da rotação e da diversificação de culturas em sistemas de produção de grãos: um ganho ambiental, agronômico e financeiro para o produtor rural. Outro resultado importante mostra como as práticas conservacionistas contribuem para evitar a perda de água, solo e de fertilizantes”, afirmou Carboni.
As pesquisas do Aisa mobilizam mais de 400 profissionais das instituições parceiras e ocorrem em municípios do Sul Mato Grosso do Sul e nas regiões Oeste, Noroeste e Centro do Paraná, abrangendo bacias hidrográficas que contribuem para o reservatório da usina de Itaipu. Um dos objetivos da iniciativa está na transferência de conhecimento, facilitando o acesso a dados pelos produtores e contribuindo com a qualificação de recursos humanos e a elaboração de políticas públicas, planejamento territorial e manejo agrícola sustentável.
Todos os projetos do programa Aisa seguem uma metodologia transversal sobre como é o comportamento da água em condições de campo, considerando diferentes tipos de solo e diversas atividades agropecuárias. A partir dessa metodologia, o programa está formando um extenso banco de dados nos temas mapeamento de solos e vegetação nativa, sistemas de produção vegetal e animal, agrometeorologia, hidrossedimentologia e hidropedologia. Isso faz desta uma iniciativa inédita e capaz de atender objetivos convergentes dos setores hidrelétrico e agropecuário.
Para a produção hidrelétrica de Itaipu, esses dados irão aprimorar a modelagem hidrológica realizada pela Diretoria Técnica da empresa, utilizada para a previsão periódica da quantidade de água que chega ao reservatório em função das chuvas. “Com o aprimoramento constante, tais dados trarão subsídios para as ações socioambientais de Itaipu no território, em especial aquelas voltadas à conservação de solos, água e biodiversidade”, afirma Hudson Lissoni Leonardo, idealizador e gestor do programa Aisa na Itaipu.
Para o setor agropecuário, os dados demonstram que tecnologias conservacionistas, estudadas e recomendadas pelos projetos, como a rotação e diversificação de culturas e o terraceamento agrícola, promovem melhor lucratividade e maior estabilidade de produção em anos de seca. Alguns dos fatores que explicam esses benefícios são as melhores condições de infiltração de água no solo; menores perdas de água, solo e fertilizantes pela enxurrada; menores perdas de água por evaporação devido à palhada na superfície; e melhor disponibilidade hídrica do solo para as culturas. São esses mesmos fatores que também promovem a adequada produção de água nas nascentes e rios e o controle do assoreamento, da eutrofização, contaminação e poluição do reservatório de Itaipu e seus afluentes.
Resultados parciais
A Embrapa trará para o workshop estudos realizados por quatro unidades de pesquisa voltadas à investigação científica e ao desenvolvimento tecnológico: Embrapa Solos, Embrapa Soja, Embrapa Agropecuária Oeste e Embrapa Florestas.
A Embrapa Solos apresentará resultados parciais do projeto que desenvolve o mapeamento digital de solos e de atributos físico-hídricos de bacias do Mato Grosso do Sul, além do trabalho de validação do Índice de Dissipação de Erosividade (IDE), para a avaliação do desempenho técnico e ambiental.
O pesquisador Luis Carlos Hernani explica que o potencial de produção de energia hidrelétrica ao longo do tempo depende significativamente da ocorrência e distribuição de chuvas, mas sobretudo do conhecimento sobre solo, fluxos hídricos e manejo das terras.
Já a Embrapa Agropecuária Oeste está desenvolvendo novas formas de monitoramento da qualidade do solo nos principais sistemas produtivos da região. A inovação está na combinação de abordagens detalhadas e simplificadas, permitindo diagnósticos mais acessíveis e eficientes. Além da produtividade, são considerados fatores como a conservação do solo e a redução das perdas por erosão e escoamento.
“Os métodos empregados analisam atributos químicos, físicos e biológicos do solo, fornecendo dados comparáveis a outras técnicas”, explicou a pesquisadora Michely Tomazi. “Nosso objetivo é oferecer um monitoramento eficaz tanto para a assistência técnica quanto para os produtores, garantindo um diagnóstico seguro e economicamente viável”, complementou o pesquisador Júlio Cesar Salton.
Já a abordagem da Embrapa Florestas integra solos, vegetação, água e geologia. Essa perspectiva permite conectar a conservação do solo à proteção de matas nativas e à manutenção dos recursos hídricos, indo além das abordagens tradicionais. “Não estudamos solos isoladamente, mas como parte de um sistema dinâmico, em que a interação com o ambiente físico, biológico e o manejo definem a qualidade e a disponibilidade hídrica”, explicou Gustavo Curcio. “Nosso diferencial é entender o solo como elemento-chave na paisagem, pois só assim garantimos resultados efetivos para a segurança da água”, complementou Annete Bonnet.
Para a Embrapa Soja, a participação no programa Aisa vem apresentando resultados relevantes para práticas agropecuárias mais sustentáveis, conforme explica o chefe-geral da unidade, Alexandre Nepomuceno. “Neste II Workshop, a Embrapa Soja irá apresentar alguns resultados do projeto que destacam a qualidade do manejo do solo como peça-chave para tornar a agricultura mais resiliente às mudanças climáticas”, ressaltou.
Com uma metodologia participativa de transferência de tecnologia, o projeto envolveu cooperativas e produtores rurais, avaliando os sistemas de cultivo com base em indicadores químicos, físicos e biológicos do solo. De acordo com o pesquisador da Embrapa Soja Júlio Franchini, líder do projeto, a iniciativa vem comparando os sistemas mais comuns com alternativas aprimoradas, especialmente por meio da diversificação de culturas.
“Os resultados mostram que a diversificação traz ganhos importantes para a saúde do solo, contribuindo para o aumento da fertilidade”, afirmou. “Outra inovação foi a criação de uma metodologia para avaliar e dimensionar terraços agrícolas, utilizando drones e ferramentas digitais, que permite um ajuste fino às características de cada propriedade”, acrescentou Franchini.
A Esalq/USP, referência no ensino e pesquisa de ciências agrárias, participa do programa Aisa por meio de um projeto que tem como foco a caracterização, a quantificação e a modelagem de serviços ecossistêmicos (serviços proporcionados pela natureza) relacionados à água, como a sua produção e regulação, e destaca a necessidade de calibração e validação de modelos hidrológicos, que avaliem os impactos ambientais do uso da terra e das mudanças climáticas, explica o Prof. Dr. Miguel Cooper do Departamento de Ciência do Solo da Esalq.
“A integração entre o AISA e as pesquisas da Esalq também evidencia a relevância da modelagem ambiental e geotecnologias, amparadas em bases de dados primários coletados na bacia hidrográfica a ser modelada, como ferramentas estratégicas para a segurança hídrica”, complementou Cooper.
Esse projeto, iniciado em 2016, produziu uma base de dados altamente detalhada sob o ponto de vista espacial e temporal, coletados em condições de campo em bacia hidrográfica experimental. O estudo quantificou os fluxos hídricos nos solos e suas relações com a recarga do aquífero freático livre, na zona saturada do solo (lençol freático) e, com a produção de água na bacia hidrográfica, analisando a interação da água com o solo, desde os seus poros, os seus agregados e horizontes, passando pela sua distribuição na paisagem agrícola, até a resposta do rio em temos do volume de água que nele passa ao longo do tempo, conforme explicou Hudson Lissoni Leoardo, líder do projeto na Itaipu.
Já os profissionais do IDR-Paraná desenvolvem ações em 11 projetos na área de abrangência do Aisa, tais como o manejo da fertilidade do solo; a produção sustentável de grãos; o uso de dejetos animais nas áreas de lavoura e pastagens; melhorias na produtividade leiteira; a adoção de novas práticas como a rotação e o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH); e a implantação de novas alternativas de produção, como a fruticultura e a piscicultura. Com a participação no Aisa, o IDR-Paraná combina a difusão de conhecimentos com a prestação de serviços integrados de pesquisa e experimentação agrícola, oferecendo assistência técnica e extensão rural, fomentando e expandindo a agroecologia.
Por fim, a Faped desempenha um papal fundamental na execução do programa Aisa, atuando como elo e suporte aos profissionais envolvidos com a iniciativa. Para a instituição, essa participação reforça seu compromisso com a excelência na gestão de recursos e com o avanço do desenvolvimento científico e tecnológico no País. A fundação oferece infraestrutura, logística e insumos essenciais para o desenvolvimento das atividades em campo. Além disso, viabiliza a contratação de mais de 100 profissionais que atuam diretamente no projeto. Por se tratar de um projeto executado por instituições públicas, a Faped exerce um papel estratégico na gestão, assegurando transparência, isonomia e publicidade em todos os processos, uma vez que as prestações de contas são auditadas pela Itaipu.
Serviço
II Workshop Aisa: Apresentação de Resultados Parciais
Quando: Dias 8 e 9 de abril de 2025
Horário: Das 8h30 às 18h30
Local: Cineteatro Barrageiros, na Itaipu (Foz do Iguaçu/PR)